Do Gaudêncio Torquato em suas Porandubas Políticas:
"Dinarte Mariz (UDN) era governador do Rio Grande do Norte. Em uma de suas costumeiras visitas à Caicó, visitou a feira da cidade, acompanhado da sempre presente Dona Nani, secretária de absoluta confiança. Dá de cara com um amigo de infância e logo pergunta :
– 'Como vai, Zé Pequeno?'
O amigo, meio tristonho e cerimonioso, responde:
– 'Governador, o negócio não tá fácil; são oito filhos mais a mulher... tá difícil alimentar essa tropa vivendo de biscate. Mas vou levando até Deus permitir.'
O velho Dinarte o interrompe de pronto :
– 'Zé, que é isso, homem, deixe essa história de governador de lado. Sou seu amigo de infância, sou o Didi!'
Vira-se para Dona Nani e ordena:
– 'Anote o nome do Zé Pequeno e o nomeie para o cargo de professor do Estado.'
Na segunda-feira, logo no início do expediente, Dona Nani entra na sala de Dinarte e vai logo informando:
– 'Governador, temos um problema, o Zé Pequeno, seu amigo, é analfabeto; como podemos nomear...'
Antes que concluísse a fala, o governador atalha:
– 'Virge Maria, Dona Nani! O Rio Grande do Norte não pode ter um professor analfabeto. Aposente o homem imediatamente.'
E assim foi feito!"
As imagens acima retratam Campo Grande no início da década de 1950 e fazem parte de uma coleção de postais leiloada no ano passado em São Paulo, enviadas pelo professor Hugo Segawa, da USP, ao arquiteto e professor da UFMS, Ângelo Arruda. À esquerda, a igreja de Santo Antônio em frente à Rua 26 de Agosto (a primeira rua da cidade) e à direita um "busão" da época passando em frente ao antigo Hotel Americano, na esquina das ruas 14 de Julho e Marachel Rondon (antiga I-juca Pirama). Veja mais aqui no perfil do Ângelo no Facebook.
História dos tempos em que havia grandes tribunos políticos, contada pelo Gaudêncio Torquato em suas Porandubas Políticas:
"Tancredo Neves era promotor em São João Del Rey, em Minas.
Um homem chamado Jesus matou uma mulher chamada Madalena. Tancredo pediu 22 anos de cadeia para Jesus, o júri deu 18, Jesus foi para a cadeia, Tancredo esqueceu.
O tempo passou. Nove anos depois, Tancredo advogado, vai a Andrelândia, pequena cidade próxima a São João Del Rey. De barba por fazer, entra em modesta barbearia de canto de rua, senta-se, está cansado, fecha os olhos, o barbeiro pega a navalha, afia, começa a tirar-lhe a barba, puxa conversa :
— O senhor é o Dr. Tancredo Neves, né ?
Tancredo abre os olhos, reconhece Jesus, o assassino de São João Del Rey. Espia pelo canto do olho, a barbearia vazia, a rua vazia, não chegava ninguém, não passava ninguém, o suor minava aflito na testa molhada e Jesus com a navalha enorme na mão pesada correndo garganta abaixo, sobe-desce, sobe-desce, abrindo caminhos na espuma.
Jesus ficou só espiando. Tancredo só teve voz para dizer:
— Sou, sim.
— Pois é, Dr. Tancredo, a vida.
— Pois é, Jesus, a vida.
— Cumpri nove anos dos 18, estou aqui, o senhor aí, o senhor com sua barba, eu com minha navalha. Só queria lhe dizer uma coisa, Dr. Tancredo.
Tancredo suava, Jesus corria a navalha pelo pescoço :
— Que coisa bonita é um júri, hein, Dr. Tancredo? Que coisa mais bonita, que discursos bonitos que o senhor e o outro doutor fizeram!"