Garimpando História




Criada através da Lei nº 5.647, de 10 de dezembro de 1970, na data em que completará 40 anos neste mês, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) vai homenagear aquele que foi o principal responsável pela sua fundação. Na sexta-feira da semana que vem, em cerimônia prevista para iniciar às 10h no Teatro Universitário da instituição, em Cuiabá (MT), será outorgado o título de "Doutor Honoris Causa" ao ex-governador do Mato Grosso uno e de Mato Grosso do Sul, Pedro Pedrossian. Como o homenageado está com a visão "fraca", seu discurso será lído pelo reitor-fundator da UFMT, Gabriel Novis Neves, um dos principais defensores da homenagem ao ex-governador. Depois da cerimônia, Neves e outros velhos amigos de Pedrossian oferecerão uma peixada cuiabana a Pedrossian que deve retornar à tarde para Campo Grande, onde reside.

Filho de armênio e chamado carinhosamente de "turco" pelos amigos cuiabanos, o engenheiro formado pela Escola Polítécnica de São Paulo que ainda jovem foi diretor da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), Pedro Pedrossian, nascido em Miranda (MS), foi eleito governador do Mato Grosso uno em 1966 pela coligação PSD-PTB derrotando o pecuarista e banqueiro, Lúdio Martins Coelho, candidato da UDN.  Em suas gestões no governo dos dois estados, foram criadas, além da UFMT sediada em Cuiabá (MT), a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) sediada em Campo Grande e a Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) com sede em Dourados (MS). Chamado de "Doutor Pedro" pelos antigos correligionários e colaboradores, Pedrossian, que já recebeu o título de "Doutor Honoris Causa" da UFMS, será neste mês duplamente doutor.

O engenheiro da educação...

– "Pedrossian governador tinha vários problemas a enfrentar, sendo que o maior de todos era o desenvolvimento do estado. Sabia que o caminho único era através da educação. O estado que herdou - um imenso curral - tinha proprietários. O analfabetismo ocupava uma das maiores taxas do Brasil. Oitenta e cinco por cento dos professores primários eram leigos. O ensino superior no grande estado era pontual e o ensino médio o final da educação para poucos. (...) A sua meta educacional era ambiciosa: fortalecer o ensino básico, criar o ensino médio voltado para o trabalho e implantar duas universidades no Estado. Uma com sede em Cuiabá e outra em Campo Grande. 

Mesmo em um Estado pobre de dinheiro, construiu o básico-físico das duas cidades universitárias, que doadas ao Ministério da Educação, abrigariam as Universidades Federais de Mato Grosso (UFMT) e Mato Grosso do Sul (UFMS).  Pedrossian não se esqueceu também da parte acadêmica que serviu de suporte inicial as universidades por ele criadas. Este é um rápido perfil do governador que mais fez pela educação na história destes Estados irmãos. Acreditou e decidiu que Mato Grosso só seria outro se cuidássemos dos nossos jovens. 

Aos oitenta e dois anos, longe do poder e dos amigos do poder, chorou ao saber que após quarenta anos, a UFMT reconheceu o seu idealizador. Parabéns UFMT pelo reconhecimento do trabalho do seu maior responsável! Obrigado Doutor Honoris Causa - Pedro Pedrossian!", relatou neste mês, em emocionado artigo publicado na imprensa cuiabana, o reitor-fundador da UFMS, Gabriel Novis Neves.






Por Edson Contar (*)

São doze horas e trinta minutos...Já estamos na fila esperando as portas serem abertas.

Dona Maria (que viria casar-se com o Dr. Leon Denizart Conte) é a bilheteira e já se acomoda no aquario redondo do caixa; seu Carlos, o que pinta os cartazes, anda de um lado pra outro, ajeitando cortinas e móveis, seu João , o porteiro (está vivíssimo), toma posição e, aqui fora, a garotada está impaciente...

Hoje tem "Caim e Abel"  da Colúmbia Pictures e depois, o seriado do Tom Mix.

Na fila, as primeiras paqueras, ou era flerte?...As mocinhas são alinhadas e bonitinhas...Quem sabe a gente pede pra guardar lugar e uma delas aceita, né?

Entramos!...-Uma "entrada de estudante" por favor...

Boa tarde seu João!...E lá vamos nós em direção as pesadas cortinas de veludo que separam a paltéia da enorme sala de recepção...Uma passadinha, antes, no baleiro, seu Nelson, para comprar uns caramelos ou drops e poder oferecer algo a namoradinha...Tem chocolates também, só que são mais caros e o dinheiro é pouco; na saida tem que sobrar pra pipoca ou um sorvete na São José do Calarge, em frente a praça, né?...Quem sabe, até um sonho do italiano na esquina....

As moças vão se acomodando e nós, os rapazinhos, começamos a "caça" rs

É um vai-vem pelos corredores, olhares, sorrisos e sinais, sem falar na mímica ("posso sentar com você?")

Um pulinho nos camarotes...Sem chance, os papais e mamães estão por lá...Lá em cima, na colméia, lá em cima, não tem muita gente...

Aí, entra esta música e é um Deus nos acuda...A paquera não rendeu...O jeito é sentar em qualquer lugar e asssitir o filme...Fazer o que?

Domingo que vem tem mais!...Eu ainda arrumo uma namorada!...
 
Ah!...Que saudades do velho Alhambra, do meu terno de linho comprado na Rener, da Maria, do Carlos e do seu João...

Do Tarcisio eu não falei, gente! Logo ele, o boa gente que livrava a nossa cara quando os  lanterninhas Alaor ou o Içum tiravam a gente só porque batiamos os pés no chão, na emoção de ver o mocinho beijar a mocinha ou para avisar o Tom Mix que tinha um cara lá em cima mirando para atirar nele. Um abraço, amigo!

Eu tinha as fotos aqui e, ouvindo esta música, não deu pra segurar...tive que viajar aos velhos tempos e conversar com vocês...

Agora, os que viveram aqueles tempos, chorem aí, vendo, ouvindo e relembrando...Os que não são "antigos", chorem mais ainda...Vocês não sabem o que perderam!

...Eu chorei!

(*Edson Contar é escritor, pesquisador e jornalista, bisneto do fundador de Campo Grande-MS, José Antonio Pereira)





– "Os velhos comunistas de Mato Grosso do Sul, tenho certeza, se consideram hoje de luto", afirmou Fausto Matto Grosso (PPS), professor da UFMS e ex-secretário de Planejamento, ao comentar a morte do artista plástico Espedito Rocha, ex-presidente de honra do PCB do Paraná falecido ontem, de câncer, aos 89 anos. Ele iniciou sua militância no Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1938 em Pernambuco e chegou ao Paraná no início dos anos 50, inicialmente trabalhando na colonização do norte do estado. Após o golpe militar de 1964, Espedito teve os direitos políticos cassados e ficou na clandestinidade. Na época ele manteve uma fazenda em São Gabriel do Oeste (MS), na época pertencente ao Mato Grosso uno, que servia de abrigo para resistentes da ditadura e acumulava recursos para atividade do PCB. 

Para se manter oculto, passou a usar o nome Tiburcio Melo. Descoberta sua real identidade, foi preso e torturado, atingindo o peso de apenas 38 quilos. Auxiliado por amigos, fugiu e se recuperou, mudando novamente o nome para Tadeu Melo. No período em que se escondeu, Espedito desenvolveu sua carreira de artista plástico, como escultor. Atividade da qual se dedicou até os últimos dias de sua vida. Conforme Fausto Matto Grosso, a fazenda em São Gabriel do Oeste havia sido comprada "por nossos antigos camaradas para desenvolver plantio de café, para financiar a atividade partidária". "Expedito foi um dos  poucos membros do Comitê Central do PCB que não se exilou em 74", acrescenta Fausto. Com o fim do período militar, o líder político retornou a Curitiba onde refundou o PCB, permanecendo presidente até meados dos anos 90. No início da década de 80, articulou o apoio do PCB paranaense à candidatura do então peemedebista José Richa ao governo do estado. (Com informações da assessoria do PPS do Paraná)





A imagem em preto-e-branco de 1965 retrata a caminhonete com dois alto-falantes Delta, um virado para frente e outro para trás, que divulgava em Corumbá, na fronteira do Brasil com a Bolívia, a primeira campanha de Pedro Pedrossian (de óculos, ao centro) ao governo, disputando o comando do Mato Grosso uno. Na lateral do veículo o símbolo da Noroeste do Brasil (NOB) lembrava que o engenheiro candidato a governador era oriundo da rede ferroviária que fomentou o progresso no sul do estado que, dividido doze anos depois, se tornaria o Mato Grosso do Sul.

Armando Anache (2º a partir da esquerda) era o encarregado da campanha de Pedrossian em Corumbá. Catorze anos depois se tornaria prefeito da chamada Cidade Branca que administrou no período de 1979-1982. Em seguida, seria eleito deputado estadual cumprindo mandato na Assembleia Legislativa de 1983 até o início de 1995. Os alto falantes Delta do carro de som ladeado pelos correligionários políticos também divulgavam o jingle de campanha do deputado estadual José de Freitas (2º a partir da direita).
  
– "Meu povo, meu povo, ele vem aí de novo. O candidato José de Freitas, é o nome ideal, dê o seu voto pra ele, pessoal, para deputado estadual... - dizia parte do jingle de campanha de Freitas. Eu era criança, mas lembro de tanto cantar" - contou o jornalista Armando Anache, filho do ex-prefeito corumbaense, ao enviar a imagem para a seção GARIMPANDO HISTÓRIA do Blog. 

Pedrossian e Freitas eram eram ligados a Filinto Muller, militar e político cuiabano que ficou famoso como chefe da polícia política da ditadura de Getúlio Vargas no início dos anos 40 e que ganhou repercussão internacional por prender a judia alemã Olga Benário, militante comunista e mulher de Luís Carlos Prestes, deportada para a Alemanha, onde seria executada em Bernburg, em 1942. Por sua grande influência nos governos federais, Filinto ditou por décadas a política regional e foi um dos articuladores da aliança PSD/PTB que elegeria Pedro Pedrossian naquele ano.

Eleito, Pedrossian governou o Mato Grosso uno de 1966 a 1971. Como senador foi uma das lideranças que se empenhou pela divisão territorial que acabou acontecendo em 1977. Veio a governar Mato Grosso do Sul por dois mandatos, de 1980 a 1982, na condição de "biônico"nomeado pelo governo militar; e de 1991 a 1995 como governador eleito. Em 1998 voltou a disputar o governo, mas embora tenha iniciado como favorito a campanha, acabou não conseguindo ir para o segundo turno em que a surpresa foi Zeca do PT, que com o reforço de votos de milhares de eleitores pedrossianistas venceu o tucano Ricardo Bacha, candidato apoiado pelo então governador e adversário de Pedro, Wilson Martins (PMDB).





Se hoje os brasileiros têm o direito de escolher o presidente da República, há pouco mais de duas décadas e meia a coisa era bem diferente. A foto acima retrata aquela época. Em campanha para eleger Juvêncio César da Fonseca prefeito de Campo Grande com Chico Maia de vice (ambos à direita), o PMDB local recebeu em 1985 a ilustre visita do líder maior do partido, o deputado federal Ulysses Guimarães, que havia ficado conhecido como "Senhor Diretas" coordenando a campanha que defendia a realização de eleições diretas para a Presidência depois de duas décadas de regime militar. 

A volta das eleições presidenciais só veio a ocorrer quatro anos depois, em 1989, quando o próprio Ulysses foi um dos candidatos derrotados que não passaram do primeiro turno. No segundo turno, Fernando Collor derrotou Luiz Inácio Lula da Silva. Por ironia histórica, o vencedor não terminou o mandato e o perdedor de outrora, depois de não desistir, está terminando agora sua segunda gestão no cargo maior da Nação. 







Neste ano de eleições governamentais de todo o Brasil, a imagem acima é um dos retratos da história eleitoral de Mato Grosso do Sul: desfilando de calhambeque pelo centro de Campo Grande, Plínio Barbosa Martins comemora sua eleição a deputado federal e a do irmão Wilson Barbosa Martins como primeiro governador eleito do novo estado oriundo da divisão do Mato Grosso uno. Era 1982, ano da volta das eleições diretas de governador depois de duas décadas de regime militar no país. A foto enviada à seção GARIMPANDO HISTÓRIA do Blog pelo leitor Carlos Renato de Souza (que fazia neste desfile a sonoplastia do carro de som) é ainda mais símbolica levando-se em conta que Plínio, na verdade, era o preferido do grupo político ligado ao PMDB para ser candidato e o primeiro governador eleito do estado.

 

Veja o que diz o livro "DO MDB ao PMDB - 40 Anos de História em Mato Grosso do Sul", Eronildo Barbosa da Silva e Tito Carlos de Oliveira Machado, do acervo da Fundação Ulysses Guimarães em MS:


"As conversas objetivando formatar a chapa do PMDB começaram em abril, embora discretamente, Wilson Martins, com o apoio do PCB, já estivesse em campo articulando a sua candidatura ao Governo de Mato Grosso do Sul. Um passo importante nessa caminhada foi a indicação de Wilson Martins para a presidência da OAB de Mato Grosso do Sul. Esse cargo somado ao de presidente do PMDB aumentou sua visibilidade política.


Wilson Martins articulava a sucessão do então governador Pedro Pedrossian com muito cuidado. Ele sabia que o candidato de consenso do PMDB e de outras forças para Governo do Estado era seu irmão Plínio Martins. Plínio, em março de 1982, alegando dificuldades de foro íntimo e outras conforme depoimento de seu filho Marcelo Martins, desistiu da sua candidatura ao governo. Eis o que informa Wilson Martins sobre esse episódio:


– Não era o meu nome o mais forte para aquela eleição. O nome mais forte era o do meu irmão, Plínio Martins. A população queria recompensá-lo pelos serviços prestados como vereador e Prefeito de Campo Grande. Ele resistiu muito a aceitar a candidatura, mas, certa ocasião, ele disse que ia ser candidato. Isso ele falou em um dia, mas no dia seguinte voltou aqui a esse escritório e disse: Wilson, não tenho condições de sair candidato, estou numa dificuldade muito grande, solicito que você me ajude, explique para os companheiros a minha situação. Aí que o meu nome veio à baila. Os companheiros que insistiam com Plínio Martins, então, passaram a insistir comigo. Então eu empunhei a bandeira e fui para a campanha."

 

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Neste ano de copa e de eleições, a foto do encontro entre Lúdio Martins Coelho e Edson Arantes do Nascimento em Cuiabá (MT) em 1965 retrata um período marcante, embora obscuro, da política e do futebol brasileiro. Naquele ano seguinte ao golpe militar de 64, Lúdio disputava o governo do Mato Grosso uno e Pelé era a grande estrela do Santos que foi à capital mato-grossense fazer uma de suas exibições do futebol espetáculo e golear por 6 a 2 o Dom Bosco em amistoso.

 

O jogo foi promovido pelo empresário Nassura (Nasrala Siufi), ousado promotor de eventos da época, conforme descreveu o jornalista Paulo Zaviasky em artigo no Diário de Cuiabá: "A coroação desses seus arrojados empreendimentos esportivos fora, a nosso ver, a vinda de Pelé em 1965, uma “verdadeira loucura”, afirma, pois em Cuiabá falsificaram – quem não se lembra disso? – os ingressos e ele teve prejuizo incalculável. A renda que deveria ser de treze mil cruzeiros, não chegara a oito. Felizmente, desabafa, em Campo Grande fora possível equilibrar as despesas".

 

Realizadas no dia 3 de outubro para escolha de governadores de 11 estados (a eleição de presidente da República foi cancelada, sendo prorrogado O mandato de Castelo Branco até 15 de março de 1967) a oposição triunfou em estados importantes como Guanabara e Minas Gerais, com Francisco Negrão de Lima e Israel Pinheiro da Silva, eleitos pelo PSD, ambos ligados ao ex-presidente da república cassado Juscelino Kubitschek, o que preocupou o grupo que defendia um regime político autoritário. Essas derrotas aliadas à pressão do grupo linha-dura levou o presidente Castello Branco a baixar o AI (ato institucional) nº 2, no 27 de outubro de 1965, que extinguiu os 13 partidos políticos existentes no Brasil e eleições diretas por duas décadas.

 

Lúdio não se elegeu em 1965. No ano seguinte, na Copa da Inglaterra, Pelé foi caçado em campo por adversários que usavam do chamado "futebol força" para surpreender o Brasil. Jogou só duas das três partidas que o Brasil disputou até ser eliminado. Um desses jogos foi o último dele com Garrincha, na vitória de 2x0 sobre a Bulgária. Juntos, os dois nunca perderam uma partida pela seleção. Garrincha entrou em decadência pelo excesso de bebidas e injeções nos joelhos "graças" às pancadas de adversários e aos cartolas que obrigavam o gênio das pernas tortas a jogar mesmo machucado para garantir o espetáculo em que ele era atração principal. Destino oposto e ascendente marcou a trajetória de Edson.

 

Em 1970 Pelé consagrou-se como o rei do tri-campeonato brasileiro. E quando as eleições diretas voltaram, o pecuarista e empresário Lúdio Coelho se tornou por duas vezes prefeito de Campo Grande-MS (de 1983 a 1985, pelo PMDB, e de 1989 a 1992, pelo PTB) e senador da República, de 1995 a 2003, pelo PSDB.

 

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