O imposto e a urna: Quando o Leão ajuda; e quando morte Gaudêncio Torquato (*)

O imposto e a urna: Quando o Leão ajuda; e quando morte

Em política, poucas coisas são tão impopulares quanto imposto. Mas poucas coisas são tão poderosas quanto imposto. Ele é o termômetro do cotidiano: está na nota fiscal, no contracheque, no frete, no combustível, na conta de luz, no carrinho do supermercado. E quando o Estado toca no bolso, o eleitor não pede power point. Pede explicação — e, se não vier, pede culpado.
 
A reeleição de Lula, como qualquer reeleição, depende de uma equação simples e cruel: "minha vida melhorou ou piorou?". Costumo usar uma equação que chamo de BO+BA+CO+CA – BOlso, BArriga, COração, Cabeça – para explicar a decisão do eleitor em votar em determinado candidato: se o bolso estiver cheio, a barriga satisfeita, o coração vai agradecer e a cabeça acabará decidindo votar no candidato que tornou possível o dinheiro para suprir a geladeira.
 
Nesse juízo rápido, tributo pesa mais do que discursos porque mexe no nervo da sobrevivência. O efeito eleitoral dos impostos costuma ser decidido por três perguntas de rua, sem economês: vou pagar mais ou menos? isso é justo? estou vendo algo em troca?
 
Quando o governo consegue fazer o cidadão responder "menos", "sim" e "sim", o imposto vira aliado. Quando a resposta vira "mais", "não" e "não vejo nada", o imposto vira armadilha.
 
Há impostos que ajudam politicamente porque parecem alívio, não punição. Medidas que reduzem ou corrigem a mordida para grandes contingentes — sobretudo sobre renda do trabalho — têm um ganho imediato: o eleitor entende sem legenda. Alívio é comunicação automática. O problema é que alívio precisa ser sentido. Se o governo anuncia e o povo não percebe, vira propaganda vazia: a promessa fica grande, a sensação fica pequena.
 
Outra forma de transformar tributo em ativo eleitoral é vestir o tema com a roupa da justiça. Há uma demanda social real por correção de distorções: brechas, privilégios, atalhos, penduricalhos, sonegação, zonas cinzentas onde uns pagam muito e outros pagam pouco. O discurso "quem pode contribuir mais" costuma encontrar eco, desde que o alvo seja bem desenhado. Quando o governo erra a mira, o argumento moral se dissolve e sobra a suspeita: "estão caçando quem produz". E aí a classe média entra em modo defensivo — e classe média defensiva costuma ser barulhenta, influente e volátil.
 
A terceira chave é a mais velha de todas: imposto dói menos quando o retorno é visível. O eleitor tolera a contribuição quando enxerga serviço funcionando, obra entregue, fila andando, escola melhorando, emprego reagindo, inflação domada. O que mata é arrecadar no escuro. Quando a arrecadação cresce e o cidadão não vê melhora, a leitura vira moral: "tiram mais e devolvem menos". E Estado que "tira e não devolve" é combustível para oposição, meme e ressentimento.
 
Mas há também o lado sombrio: o imposto pode ser o sabotador silencioso de uma reeleição.
 
A primeira armadilha é o tributo "miúdo" que vira símbolo gigante. Às vezes o impacto financeiro não é devastador, mas o gesto é explosivo — sobretudo quando o imposto parece atingir o consumo popular, hábitos recentes, pequenas compras, aquele "acesso ao mundo" que o cidadão construiu aos trancos. A política não é só cálculo; é cultura. Quando mexem num hábito cotidiano, mexem numa identidade. E identidade ferida vira voto contra.
 
A segunda armadilha é o imposto com cara de surpresa, confusão ou pegadinha. A pior sensação do eleitor não é pagar; é ser enganado. Regra nebulosa, mudança repentina, custo escondido, anúncio que não se confirma no mês seguinte: tudo isso corrói confiança. E confiança, em ano eleitoral, é o cimento do voto. Sem ela, qualquer justificativa vira desculpa.
 
A terceira armadilha é a mais corrosiva: taxar para arrecadar sem taxar para entregar. Se o governo parece apenas uma máquina de coletar, perde a disputa do imaginário. E imaginário é onde se vence eleição.
 
Por isso, a política tributária de um projeto de reeleição precisa obedecer a cinco mandamentos: alívio claro para muitos; justiça com alvo cirúrgico; comunicação pedagógica e simples; retorno visível e atribuível; e, sobretudo, evitar símbolos negativos desnecessários. Em política, às vezes a arrecadação extra não compensa a erosão simbólica. Um imposto pode render milhões ao caixa e bilhões ao adversário — em indignação.
 
O veredito é este: imposto decide eleição menos pelo valor e mais pelo sentido. Se parecer alívio, justiça e retorno, ajuda. Se parecer aperto, confusão e ausência de entrega, morde. E quando o Leão morde, o eleitor costuma lembrar na urna. 
 
(*Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor emérito da ECA-USP e consultor político)


Deixe seu comentário


Postado por: Gaudêncio Torquato (*), 09 Março 2026 às 11:45 - em: Falando Nisso


MAIS LIDAS