Menos é mais Heitor Freire (*)

Menos é mais

No mundo moderno, infelizmente, estabeleceu-se a busca desenfreada pelo excesso. Quanto mais, melhor. A maioria das pessoas quer mais dinheiro, mais poder e mais propriedades, sem perceber que essa ânsia pode levar à depressão, ansiedade e frustração.
 
Por outro lado, vem se desenvolvendo uma consciência do que verdadeiramente somos e daquilo que, de fato, preenche nosso ser. Quando morrermos – e disso ninguém escapa – nada do que acumulamos nos acompanhará, promovendo o desapego na marra. A começar pelo próprio corpo. A morte é o maior acontecimento da nossa encarnação, e nela não tem como fugir da nossa individualidade. Na encarnação, algumas vezes temos quem faça por nós ou para nós. Na morte, não tem jeito. É nós conosco, simples assim.
 
Assim, querendo ou não, acabamos aprendendo que menos é mais, e isso decorre de um princípio antigo presente em muitas tradições, cujo significado básico é buscar a simplicidade, aplicada a muitos campos, como a arte, a literatura, a música e, principalmente, o estilo de vida.
 
O conceito de brevidade como sinônimo de sabedoria pode ser rastreado até os provérbios gregos antigos. Quílon de Esparta (600 a.C a 520 a.C), o primeiro dos Sete Sábios da Grécia em sapiência, fazia uso de dois  famosos provérbios: "Os filósofos mantêm a brevidade" , e "Cultive a tranquilidade."
 
O Papa Francisco adotou a convicção de que “menos é mais” em sua carta encíclica de 2015, Laudato si, observando que esse conceito se “encontra em diferentes tradições religiosas, incluindo a Bíblia”. 
 
Este princípio, menos é mais, baseia-se na ideia de que a remoção de elementos supérfluos aumenta a clareza do conceito, excluindo tudo o que sobra, enfatizando a funcionalidade, a estética limpa e a simplicidade.
 
Na arquitetura, esse conceito se traduz em estruturas simplificadas, uso racional do espaço e atenção cuidadosa ao layout e aos materiais. A arquitetura moderna viu uma evolução dessa ideia, com arquitetos como Frank Lloyd Wright, que, embora adotasse uma abordagem diferente, também defendia a simplicidade e a integração com o meio ambiente. No Brasil, temos o exemplo do grande Oscar Niemeyer, que com suas formas simples, curvas e poucas linhas traçou grandes monumentos e edifícios que se tornaram marcos da nossa arquitetura.  (É lindo ver como um ateu foi capaz de projetar uma das catedrais mais belas do mundo no coração de Brasília.)
 
O princípio da simplicidade remete ao estilo de vida minimalista. O minimalismo volta-se ao uso consciente do consumo. A cada dia, mais pessoas se tornam adeptas desse movimento. E os benefícios são muitos. Abaixo, deixo uma lista com as vantagens de adotar essa proposta como uma filosofia de vida:
 
-  Comprar somente o que, de fato, será usado;
 
- Gastar bem menos, podendo usar o dinheiro para outras finalidades;
 
- Diminuir os resíduos e, assim, colaborar com a preservação do meio ambiente;
 
- Reutilizar e reciclar, sempre que possível; 
 
- Usar o tempo com mais sabedoria, garantindo produtividade e autoestima.
 
Hoje em dia, o termo “menos é mais” é frequentemente interpretado de uma forma mais ampla, incluindo ideias como eficiência, clareza na comunicação e a importância do essencial nas escolhas da vida cotidiana.
 
Mais recentemente, esse princípio foi integrado aos conceitos  de sustentabilidade e ecodesign, promovendo o uso de materiais reciclados e produção ecologicamente correta, proporcionando:
 
Bem estar, reduzindo o excesso de coisas e ocupações a fim de trazer mais paz, calma e satisfação com a vida, combatendo o estresse e a ansiedade. 
 
Clareza e foco: menos distrações que resultam em mais concentração nas tarefas importantes, levando à excelência e melhor utilização do tempo. 
 
Espaço e organização: a diminuição no volume de bens materiais libera espaço físico, o que pode trazer uma sensação de leveza e facilita a organização. 
Economia: Ao comprar menos e com mais qualidade, é possível economizar dinheiro e evitar dívidas. 
 
Relações: a valorização das relações humanas e dos sentimentos verdadeiros, em vez de bens materiais, celebrando o que é essencial. 
 
Na alimentação, menos é mais refere-se à importância de fazer escolhas inteligentes, priorizando a qualidade sobre a quantidade e alimentos nutritivos e orgânicos, em vez de simplesmente reduzir a porção. A ideia é preferir alimentos frescos, com poucos aditivos, e reduzir o consumo de processados, tendo como lema a prática de "descascar mais e desembalar menos".
 
Enfim, menos é mais enriquece nossas vidas.
 
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)


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Postado por: Heitor Freire (*), 09 Outubro 2025 às 13:15 - em: Falando Nisso


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