Dengue, zika e chikungunya: a tríplice epidemia que nos ameaça

Dengue, zika e chikungunya: a tríplice epidemia que nos ameaça

Há quase trinta anos, o Rio de Janeiro foi surpreendido por uma doença que se caracterizava por febre de início agudo, acompanhada de dores generalizadas. Em pouco tempo a doença passou ser tratada com certa familiaridade pela população daquele estado e, em seguida, de outras regiões do país. Desde então, a dengue passou a fazer parte de nosso cotidiano, e hoje já é registrada em todos os estados brasileiros e também no Distrito Federal. 
 
O mosquito Aedes aegypti, transmissor do vírus causador da doença, passou a ser o vilão das epidemias e identificado como o “único elo da cadeia de transmissão sobre o qual poderíamos agir”. Na prática, as medidas de controle permaneceram focadas exclusivamente no uso de produtos inseticidas para destruir as larvas e os mosquitos adultos, este último ficou conhecido pelo nome popular de “fumacê”. Por essa opção, estamos perdendo a luta contra o mosquito. Algo como aquele humilhante 7 x 1 no histórico jogo contra a seleção alemã de futebol, durante a Copa de 2014.
 
Nosso país tem as condições ambientais favoráveis à proliferação do mosquito Aedes, representadas por chuvas em abundância e elevadas temperaturas; estes fatores, associados à alta densidade populacional, bem como a coleta de resíduos sólidos domiciliares e o abastecimento de água potável deficientes, compõem o caldo necessário para a reprodução em larga escala do vetor.
 
A partir outubro de 2013, diversos países e territórios da América Central e Caribe passaram a conviver com epidemias de chikungunya, outro vírus transmitido pelos mosquitos Aedes. Em poucos meses, a epidemia se alastrou para mais de 40 países da região das Américas, incluindo Estados Unidos, ao norte, e Brasil, ao sul. De outubro de 2013 até o mês de julho de 2015, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde já foram notificados cerca de dois milhões de casos da doença na região. 
 
Assim como ocorre com a dengue, a infecção pelo vírus Chikungunya (CHIKV) causa febre alta de início agudo, acompanhada de dores na cabeça, nos músculos e nas articulações, que podem ser muito intensas, afetando principalmente as extremidades (tornozelos, punhos e mãos); as dores articulares muitas vezes provocam incapacidade para realizar as atividades rotineiras, tais como tomar banho sozinho ou vestir-se, digitar o teclado de um computador ou celular. 
 
O CHIKV provoca artrite, ou seja, inflamação nas articulações, e não apenas dor, como acontece com a dengue. Aí reside uma das principais diferenças entre essas doenças. Outra grande diferença entre o quadro clínico das duas infecções é a relativa frequência com que aquela provocada pelo CHIKV se torna crônica, fato inexistente na dengue. Imaginem ficar seis ou oito meses com dengue!
 
Mais recentemente, já em maio de 2015, passamos a conviver com a “zika”, que para muitos estava associada à popular expressão “deu zica”, no sentido de que algo não teve o resultado esperado. No exemplo acima, o termo define o nome de um vírus que pertence ao mesmo gênero e família do vírus da dengue. As manifestações clínicas da zika são febre baixa (por vezes ausente), vermelhidão pelo corpo e coceira, as quais costumam ser intensas e generalizadas. Este quadro é complementado com fortes dores articulares, geralmente em mãos, punhos e tornozelos, que, por vezes, podem ser acompanhadas por inchaços nessas articulações. 
 
O vírus Zika também é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, sendo sua ocorrência condicionada aos mesmos determinantes ambientais e sociais referidos para a dengue e a chikungunya. Isto equivale dizer que, enquanto existirem deficiências no abastecimento de água potável e na coleta de resíduos sólidos domiciliares, aliados a outros fatores anteriormente citados, estaremos expostos a epidemias de zika.
 
Recentemente, tive o privilégio de vivenciar duas gratificantes experiências. A primeira ocorreu durante os últimos oito meses, na cidade de Feira de Santana, estado da Bahia, período no qual acompanhei o desenrolar de uma tríplice epidemia: dengue, zika e chikungunya. Tudo acontecendo na mesma cidade, ao mesmo tempo!!x Mesmo com a experiência acumulada ao logo de quase trinta e três anos de exercício da medicina, confesso que me foi muito difícil acompanhar o sofrimento daqueles doentes. Desnecessário dizer que penso em nossa Campo Grande o tempo todo, preocupadíssimo com os impactos sobre a Rede de Saúde caso a “tríplice epidemia” também ocorra aqui.
 
A segunda experiência, igualmente gratificante e enriquecedora, está sendo participar da 14ª. versão do Curso Internacional de Dengue, que acontece no Instituto de Medicina Tropical “Pedro Kourí”, em Havana, Cuba. Já havia participado da 2ª. versão deste curso, no ano de 1989. Detalhe: na primeira oportunidade, participei como aluno; agora, vinte e seis anos depois, tenho o privilégio de participar como professor. Nessa trajetória, reconheço o convívio com profissionais de saúde de diversos países da América Latina, com os quais muito aprendi. O curso, iniciado no dia 10 de agosto, transformou-se em um grande encontro de profissionais de saúde, pesquisadores e estudantes principalmente latino-americanos, mas não somente. Vindos de mais de 50 países, aqui estão profissionais que se dedicam a pesquisas e atividades de diagnóstico, tratamento, controle e prevenção das doenças acima citadas. 
 
Estas duas semanas em Cuba serviram para outro aprendizado, que não estava inicialmente previsto: sentir o quanto nós, brasileiros, estamos “apartados” do cotidiano da América Latina. Os conflitos e lutas políticas que estão acontecendo intensamente nos últimos anos na região e em diversas partes do mundo têm sido “informados” de modo extremamente superficial pelos nossos meios de comunicação. A forma geralmente unilateral e passional de os grandes jornais e redes de televisão tratar de questões polêmicas, como, por exemplo, os recentes conflitos políticos no Brasil, Equador, El Salvador e Venezuela são exemplos incontestes de que passamos da hora de repensar o papel desses veículos de comunicação. 
 
Embora sendo latino-americanos, muitas vezes ignoramos este fato. Um canal de televisão, muito popular fora do Brasil, tem um slogan que me parece deveria servir para estimular nossas reflexões: “Nuestro Norte es el Sur”.
 
Durante o referido curso, que aconteceu do dia 10 a 21 de agosto, os informes científicos e os relatos de experiências dramáticas registradas em países que estão convivendo com epidemias simultâneas de dengue e de chikungunya apontam para uma prioridade: a (re)organização da rede de saúde para enfrentar estas enfermidades. A realidade observada em Feira de Santana, onde está acontecendo a “tríplice epidemia”, deve servir de alerta para os profissionais e gestores de saúde em Mato Grosso do Sul.
 
No entanto, mais que a capacidade técnica no atendimento ao doente, a nova realidade exigirá competência na organização da rede de atenção aos casos suspeitos, ou seja, competência dos gestores da saúde. Tal preocupação é maior ainda quando levamos em consideração dois aspectos que considero muito importantes: a grave situação do Sistema Municipal de Saúde de nossa capital, e a possibilidade de ocorrência de razoável percentual de pessoas que persistirão com as manifestações clínicas durante meses, fato que sobrecarregará ainda mais a nossa combalida rede de atenção.
 
(*Rivaldo Venâncio da Cunha, médico infectologista é doutor em Medicina Tropical, professor titular da Faculdade de Medicina da UFMS e pesquisador da Fiocruz Mato Grosso do Sul)
 


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Postado por: , 21 Agosto 2015 às 15:00 - em: Falando Nisso


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