Da privacidade Heitor Freire (*)

Da privacidade

Está cada vez mais difícil julgarmos o que pode e o que não pode entrar em nossas vidas. A quantidade de informação disponível sobre qualquer assunto, o ritmo acelerado de nossas rotinas e a nebulosa relação entre o que é público e o que é privado, fazem com que fiquemos dispersos e acabemos negligenciando nossa privacidade, que é um bem imaterial e deveria ser melhor preservado.
 
Há, hoje em dia, a tendência a uma exposição pública que implica na renúncia a esse privilégio maravilhoso da privacidade. Todos querem ser celebridade. A fama virou virtude. E isso representa prejuízo ou benefício?
 
A meu ver, é um prejuízo, porque resulta exatamente na privação da individualidade. E é por meio da individualidade que podemos crescer verdadeiramente. É na individualidade que se manifesta a originalidade de cada um de nós.
 
Buscamos uma forma de identificação com o que está acontecendo, com o que está na moda, sem que percebamos essa tremenda inversão de valores, de modo que cada ato acaba sendo pautado pela urgência do momento, pela influência do tempo presente.
O conhecimento nos chega pelos caminhos mais variados. É preciso estar atento para conseguir assimilar tudo e, quem sabe, aprender algo com tanta novidade pairando no ar. Depois que me casei, certa vez li na página do lendário colunista social Ibrahim Sued – não me lembro se foi na revista Manchete ou no jornal O Globo –, um ensinamento que ele passou para a filha que estava se casando: “Nunca entre no banheiro ao mesmo tempo que seu marido. Manter a sua privacidade é fundamental para o sucesso do seu casamento”. Gostei, e adotei essa medida como comportamento, e também ensinei isso às minhas filhas.
 
Aqui faço um à parte, para não passar em branco: Para as novas gerações que não sabem de quem se trata, Ibrahim Sued foi um jornalista brasileiro que brilhou por quase quarenta anos (da década de 1950 aos anos 1990) e deu uma dimensão extraordinária à crônica social, pois com muita inteligência e capacidade de observação, conseguiu transformar esse nicho da grande imprensa, até então restrito às fofocas, em uma ferramenta de grande influência política, pela qualidade de seu relacionamento social, político e empresarial.  Suas crônicas se tornaram leitura obrigatória para políticos e empresários – além das madames, naturalmente –, dando até dicas de aplicação na bolsa de valores (coisa que hoje em dia seria considerada um crime) e “furos” de reportagem que o transformaram em um grande fenômeno de comunicação, com sua página diária muito lida e apreciada em todo o Brasil.
  
Mas, voltando à privacidade, a não observância do ensinamento do recato e da autopreservação, abrindo espaço para a invasão permanente do outro, pode levar à indesejada promiscuidade, quando perdemos a nossa individualidade. É preciso dar muita atenção para esse comportamento. Um casal, naturalmente, tem uma intimidade que não pode e não deve descambar para a promiscuidade, sob pena de comprometer a continuidade da relação conjugal, porque acaba se transformando em falta de respeito.
 
Daí o exemplo, com o uso do banheiro: cada um tem o direito inviolável de usar o banheiro de forma individual, de sentir-se sozinho, de olhar-se no espelho sem cuidar que alguém poderá estar olhando, criticando ou espionando.
 
Na medida em que a individualidade prevalecer, se anula o coletivo, e se fortalece o eu. Quem se expõe acaba se fragilizando. A dúvida acompanha o ser humano. Para clarear o caminho e ter a coragem, a ousadia e o discernimento indispensáveis a um caminhar consciente, milênios transcorreram. A busca é incessante.
 
Seguimos existindo, tendo como balizas os erros e os acertos – nossos e dos outros. Quando conseguimos sair das influências predominantes e começamos a filtrar nossos atos e pensamentos manifestando o nosso verdadeiro eu, as coisas começam a mudar e a tomar o seu rumo natural.
 
Os parâmetros estabelecidos e determinados pelos líderes que conduzem a multidão nem sempre são os verdadeiros para guiar um ser humano. Eles decorrem dos interesses que predominam sobre esses líderes e podem se modificar ao sabor das circunstâncias.
Assim, meus amigos, preservar a privacidade, que considero, como já disse, patrimônio imaterial, é fundamental.
 
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)


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Postado por: Heitor Freire (*), 28 Setembro 2024 às 09:00 - em: Falando Nisso


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