Da certeza absoluta Heitor Freire (*)

Da certeza absoluta

As três grandes certezas da vida, frequentemente citadas na filosofia popular, são: a morte, os impostos e a impermanência (ou a constante mudança). Essas certezas representam o fim inevitável, as obrigações financeiras e a natureza dinâmica da existência. 
 
Para mim, só existem duas certezas absolutas: a existência de Deus (único e verdadeiro) e a certeza da morte.
 
A nossa existência é pautada por dois acontecimentos maravilhosos: nascimento e morte. Aprendi que, começando com o nascimento, certamente haverá um desfecho inevitável: a morte.
 
O acontecimento que mais aflige o ser humano é a morte. Todos sabemos que vamos passar por ela, o que a torna indiscutível. O medo que ela provoca já deveria ser devidamente entendido e aceito, porque a morte é irreversível, além de ser o único fato previsível em nossas vidas. Todos sabemos disso, mas mesmo assim reagimos, cada um a seu modo. A morte é algo que podemos experimentar apenas indiretamente, no outro que morre, porque quando morrermos não iremos experimentá-la. Iremos vivê-la.
 
Essa certeza implacável, naturalmente, longe de causar medo, deveria, ao contrário, nos estimular a promover uma mudança em nosso comportamento. Porque, a depender dele, estaremos pavimentando o nosso caminho. Ou, cavando a nossa própria derrocada. Isto porque, fatalmente, iremos colher o resultado da nossa plantação nesta encarnação.
 
A qualquer momento, não sei quando, chegará a hora de partir para novas realizações no plano espiritual, de voltar para a pátria celestial, e ali assumir novas missões em função do nosso plantio aqui na Terra. É interessante observar que cada um de nós já morreu muitas vezes ao longo de outras encarnações. Então, no íntimo, já sabemos como é a morte. E isso não deveria causar ansiedade.    
 
E com essa perspectiva natural e inevitável, comecei a conjecturar a respeito da morte, de sua finalidade e dos benefícios que proporciona – embora para uma grande maioria que não consegue alcançar esse entendimento, ela seja um castigo – e suas consequências.
 
Em vez de tristeza, ansiedade e desesperança, deveríamos aceitar a morte como um dado perfeitamente natural da vida. E, para isso acontecer, é preciso que se fale da morte, e não que se usem palavras ou expressões substitutas que amenizem o seu significado. Isso significa admitir que, assim como outros processos – como o nascimento –, a morte é um estágio da vida, o qual sabemos que virá implacavelmente para todos.
 
Entender essa situação como natural, e aceitá-la, representa uma libertação. Não há necessidade de temer a morte. Ela vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. É uma certeza absoluta: 100% das pessoas morrem. De nada adiantam os avanços tecnológicos. É uma regra que não tem exceção. Aceitá-la é uma questão de inteligência. Daí a importância de aproveitarmos a nossa encarnação enquanto aqui estivermos. E quando a nossa hora chegar, aceitemos com serenidade. E isso deve estar baseado na preservação consciente da vida, e não no medo de morrer.
 
Em suma, há dois tipos de morte: a física, quando ocorre a separação do corpo e da alma, e a espiritual, considerada como a separação da pessoa de Deus. A primeira nos transporta para o mundo espiritual, onde seremos destinados ao lugar para onde nossas ações apontaram. A segunda é a morte moral, metafísica, na qual, mesmo encarnados, nosso comportamento traz consequências que “matam” nossa existência sadia.  
 
Então entender essa situação como natural, aceitando-a, representa uma libertação. A propósito disso, transcrevo a seguir uma página, atribuída a Santo Agostinho: 
 
A morte não é nada.
 
“A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.
Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.
Me deem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.
Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.
Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.
Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.
Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.
A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Por que eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?
Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho…
Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.”
 
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)


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Postado por: Heitor Freire (*), 07 Abril 2026 às 13:00 - em: Falando Nisso


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