Crônica de um quartel de século Wagner Cordeiro Chagas (*)

Crônica de um quartel de século

Quinta-feira, dia 31 de julho, após buscar o jornal na transportadora, voltei para casa e fui passear de bicicleta com minhas filhas para aproveitar os últimos dias de férias escolares. Após algumas pedaladas pelas pacatas ruas de nosso bairro, passamos em frente a um senhor nordestino que tem o hábito de ouvir seus forrós no pequeno rádio à pilhas, sentado na calçada de sua casa. Pude ouvir rapidamente que naquele momento ele ouvia uma emissora onde o locutor tratava da polêmica taxação do governo dos Estados Unidos ao Brasil, articulada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PL/SP). Retornei para casa lembrando daquelas cenas de filmes sobre Primeira ou Segunda Guerra Mundial, onde as pessoas ficavam atentas aos noticiários do rádio referentes ao desenrolar do conflito que mostrou a crueldade humana no início do século 20. Sim, em pleno primeiro quartel do século 21 (primeiros 25 anos) tem pessoas que leem jornal impresso e que ouvem programas de rádio. São raros, é verdade.
 
Após almoçar, deitei-me no sofá para acompanhar o Jornal Hoje, mas logo prestei mais atenção ao som do avião que passa por Fátima do Sul algumas vezes na semana, por volta das 13 horas. Um Boeing que sai de Assunção, capital do Paraguai, com destino a Madri, capital da Espanha. Como de costume, peguei o celular, abri o aplicativo Flightradar para conferir se realmente era esse o voo. Outro dia enviei, via WhatsApp, uma foto do avião tirada do aparelho telefônico ao meu amigo e ex-orientador de mestrado, professor Paulo Cimó, especialista em História de Mato Grosso do Sul, e brinquei dizendo que aqueles tempos em que nosso antigo Sul de Mato Grosso pertencia ao reino espanhol - conforme ditava o Tratado de Tordesilhas, de 1494 - pareciam estar de volta, só que pelos ares e não mais por mar e terra. Ele respondeu: “continuamos na rota de Madri”.
 
À noite, novamente acompanhando um telejornal, dessa vez o da Cultura, as notícias a respeito da guerra entre israelenses e palestinos recordaram-me de um trabalho escolar que fiz em 2001. Na capa desenhei a bandeira de Israel e Palestina e escrevi, à caneta, as informações encontradas nos telejornais que eu já tinha o costume de assistir graças as dicas da professora de Ciências Sociais, Cláudia Capilé. O mais triste hoje é sermos testemunhas desse genocídio contra o povo palestino, conflito que começou no final de 2023 devido aos atos terroristas do grupo Hamas contra cidadãos em Israel. Quando haverá fim naquela briga que vem desde o final da década de 1940?
 
Ao preparar-me para o retorno aos trabalhos como professor de ensino básico, refleti sobre o que ouvia e lia dos especialistas no início dos anos 2000, que o século 21 seria o século da educação, onde a inteligência seria mais valorizada. De fato, avançamos bastante na educação pública com a oferta de mais vagas para as crianças, jovens e adultos, melhorias nos salários de professores (apesar das desigualdades regionais que ainda existem na remuneração); escolas com infraestrutura mais adequada, parte disso graças a programas que garantem recursos financeiros como o FUNDEB. O número de vagas nas universidades públicas e privadas mais que dobrou e muitos estudantes pobres puderam se orgulhar de serem os primeiros de gerações de famílias a ter um diploma de nível superior. No entanto, muito do que se previa há uns 25 anos atrás, não se concretizou. Constata-se que temos muitos desafios. Quem diria, por exemplo, que o acesso à informações de forma tão veloz que temos atualmente levaria ao surgimento de crenças em notícias falsas, como as desconfianças em relação à eficácia de vacinas, tal qual se observou nos tempos da pandemia de Covid-19?
 
Temos muitos anos para o encerramento deste século, desafios em diversos aspectos para o Brasil e o mundo não faltam e, sem dúvidas, o maior deles é o de se concretizar o desenvolvimento sustentável com combate às desigualdades sociais. Por aqui, já passou da hora de encerrarmos as brigas políticas e ideológicas e exigirmos dos líderes políticos que busquem o bem comum, dever de todos aqueles que se elegeram aos cargos públicos.    
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é mestre em História pela UFGD e professor em Fátima do Sul - MS)


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Postado por: Wagner Cordeiro Chagas (*), 20 Agosto 2025 às 11:45 - em: Falando Nisso


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