Marco Eusébio (*)
A força da internet quebrando cabrestos
Com raríssimas exceções, quem insistiu na velha política de pagar pelo apoio explícito de alguns veículos de comunicação não se deu muito bem nas atuais eleições. Isso foi observado em todo o Brasil, inclusive em Campo Grande e no interior de Mato Grosso do Sul.
A parcela minoritária da mídia que ditava regras, manipulava a cabeça do leitor eleitor, criava os tais "formadores de opinião" e fazia poderosos se dobrarem bancando-os com dinheiro público ou de grupos interessados no poder, perdeu boa parte da força com a democratização da informação via internet.
Hoje qualquer cidadão tem acesso direto às fontes variadas sem precisar deixar que alguém que se diz "bem informado" faça sua cabeça. O eleitor sem preguiça e interessado pode ler o que diz um e outro, pesquisar na internet, fazer comparações e tirar suas próprias conclusões, sem ser induzido ou encabrestado.
Só quem parou no tempo não conseguiu enxergar que o mundo virtual, mais cedo ou mais tarde, quebraria tais monopólios de papel. Nem a poderosa ditadura da manipulação da TV está resistindo à abertura proporcionada pela internet. Pesquisas manjadas já não enganam quase ninguém, deixando escrachado seu exclusivo papel de induzir incautos ao chamado "voto útil", que, se favorecia a quem pagava, hoje, até menino sabe, só é útil pra quem recebe, já que até quem andou pagando não se deu tão bem assim nas urnas neste ano.
Se antes ajudava, hoje, com tanta informação disponível a um clique, pega muito mal fazer uso da mídia de aluguel. Afinal, já diziam os antigos: "diga com quem andas e direis quem és."
Mas é claro que existem bons veículos que não se prestam à manipulação. Mesmo estes estão mudando conceitos, para não sucumbir à força da democracia da informação. Embora o impacto maior seja sentido agora, o fenômeno não é novo. Já vinha acontecendo com o avanço da TV no jornalismo. Agora se expandiu com muita velocidade por meio da internet, veículo em que o leitor ou telespectador não tem apenas papel passivo, mas pode opinar livremente.
No livro "Eles mudaram a imprensa" (Editora FGV) em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), o jornalista Evandro Carlos de Andrade, ex-diretor de jornalismo da Globo falecido em 2001, cita outro livro, "Os alemães", do sociólogo Norbert Elias [in memoriam], que analisa as transformações da sociedade no século 20 e se detém no processo de informalização. E mostra que esse processo, alavancado hoje no mundo virtual, já era observado desde o recente século passado.
Evandro afirma:
"O crescimento da noção de cidadania, automaticamente, instintivamente, impõe aos meios de comunicação essa mudança. O meio de comunicação é menos condutor, é menos impositivo, é menos indutor do pensamento. A ideia de formação de opinião se atenuou, perdeu espaço. O editorial perdeu importância de uma maneira fantástica. Quando eu comecei na profissão, os jornais botavam os editoriais na primeira página. Hoje isso é uma excepcionalidade. Só quando o jornal quer dizer ´olha que coisa superimportante` é que ele faz isso. O Globo, na reforma que fez, por vontade do João Roberto Marinho, botou o editorial e botou também a seção ´Outra opinião`, como quem diz: ´Não queremos ser os donos da verdade, esta aqui é uma maneira de ver, e a outra maneira de ver é essa".
Há poucas décadas, alguns privilegiados diziam que informação era um bem precioso. Hoje, acessível cada vez mais a pessoas de todas as classes econômicas e sociais sem distinções de idade, raça, gênero, credo etc., a informação livre faz ruir sistemas arcaicos, abre os olhos e ouvidos de quem quer ver e ouvir, acelerando mudanças imprescindíveis para, senão extinguir, pelo menos reduzir maracutaias até pouco tempo atrás consideradas "normais".
O próprio sistema educacional já não se atém ao decoreba de antes. O teste de redação do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), por exemplo, exibe temas cada vez mais atuais. Isso significa que para tirar boa nota é preciso ter informação de qualidade, saber ler e interpretar e saber expressar o que se andou lendo por aí. Se uma minoria privilegiada sabia faz tempo que informação é bem precioso, agora, correndo solta por meio do livre e democrático território virtual da internet, este bem está sendo vital para ajudar a promover, no mundo real, a igualdade social.
(*Jornalista editor deste Blog)
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Postado por: Marco Eusébio (*), 05 Novembro 2012 às 12:02 - em: Falando Nisso