MS 40 Anos: O 2º governo Marcelo Miranda (PMDB/1987-1991) Wagner Cordeiro Chagas (*)

MS 40 Anos: O 2º governo Marcelo Miranda (PMDB/1987-1991)

Em continuidade à série sobre as administrações de Mato Grosso do Sul ao longo desses 40 anos, apresenta-se aqui a segunda gestão de Marcelo Miranda Soares. Desta vez, o governador assumiu o cargo de forma legitimada no voto popular e por outro partido: o PMDB. Marcelo que era afilhado político de Pedro Pedrossian, pertencia, desde 1982 quando se elegeu senador, a outro grupo: o de Wilson Barbosa Martins. O retorno dele ao governo se deu devido a alguns fatores. Primeiro, ser o candidato apoiado pelo ex-governador Wilson. Segundo, ter sido favorecido pelo Plano Cruzado que, ao congelar os preços no Brasil e controlar a inflação descontrolada, garantiu uma enorme popularidade ao PMDB a nível nacional.
 
Marcelo Miranda assumiu o governo no dia 15 de março de 1987, juntamente com seu vice, o político douradense George Takimoto (PFL). Era a primeira vez que um político de Dourados ocupava a função de vice-governador de Mato Grosso do Sul. Ao se eleger chefe do Executivo estadual Marcelo renunciou ao mandato de senador, cuja vaga foi ocupada pelo suplente Antônio Mendes Canale.
 
Se no primeiro mandato, entre 1979 e 1980, Marcelo não conseguiu realizar muitos de seus objetivos, desta vez ele teve quatro anos e pôde investir em diversas áreas da administração. Nesta gestão ele continuou com uma marca de seu primeiro governo, qual seja, a elevação de vários distritos à categoria de município. Tornaram-se municípios, em 1987: Chapadão do Sul, Dois Irmãos do Buriti, Juti, Paranhos, Santa Rita do Pardo, Vicentina, e, no ano de 1988, Sonora. As pesquisas demonstram que Marcelo Miranda foi o governador que mais criou município neste estado.
 
Governador pelo PMDB, Marcelo Miranda continuou com as políticas de incentivo e apoio à organização dos trabalhadores por meio do sindicato. Nesta gestão, por meio da criação da Secretaria de Trabalho, ligada ao PCB e depois ao PMDB, de acordo com pesquisas do historiador Eronildo Barbosa da Silva, foi criada a Universidade do Trabalho (UNIT), com objetivo de formar novas lideranças sindicais e comunitárias.
 
Na área da educação o governo construiu mais de mil salas de aulas. Criou-se o projeto da Universidade Latino Americana, com sede em Dourados, com objetivo de integrar Brasil, Paraguai e Bolívia no que tange ao ensino superior. Por outro lado, no trato com os professores da rede pública as coisas foram complexas. O governo experimentou, ao longo de 4 anos, 5 greves do magistério, lideradas pela FEPROSUL, devido principalmente à luta pelos reajustes salariais e atrasos nos pagamentos de salários. A longa crise inflacionária, herança da ditadura militar, corroia os vencimentos de boa parte dos servidores públicos e da classe trabalhadora em geral. Eram os tempos de planos econômicos do governo Sarney, fracassados no combate à inflação.  
 
Foi nesse governo que nasceu a Secretaria de Cultura de Mato Grosso do Sul, tendo como secretário o artista plástico Humberto Espíndola. A secretaria investiu em projetos importantes como a produção do filme "Caramujo-Flor", do cineasta Joel Pizzini, baseado na obra do poeta Manoel de Barros.
 
Em relação às obras públicas, essa gestão concluiu a pavimentação da BR-262 entre Campo Grande e Três Lagoas (distrito de Garcias); pavimentou a rodovia de Água Clara a Paranaíba; construiu o presídio de segurança máxima de Campo Grande e iniciou a construção do presídio de Dourados (hoje PED). Cinco hospitais foram construídos, além de vários quilômetros de linhas de transmissão de energia elétrica.
 
Politicamente, o governo criou em Dourados a governadoria regional, administrada pelo vice-governador Takimoto, com vistas, segundo o governo, a melhor atender as reivindicações políticas da região. No entanto, para outros, a governadoria não passou de um cabide de empregos para os correligionários políticos. Em outubro de 1987, a administração sofreu alguns desconfortos, conforme registrou a imprensa estadual na época, devido à suspeitas de irregularidades na área de comunicação do governo. 
 
A Assembleia Legislativa, em 1990, autorizou processo contra o governador. No entanto, por falta de provas, o caso foi arquivado. Em fins de 1989, Marcelo Miranda chegou a cogitar deixar o governo para candidatar-se a outro cargo, mas desistiu. Foi nesse período também que se deu, pelo Legislativo, a formulação da Constituição Estadual de 1989, já que o País possuía uma nova Carta Magna, a de 1988.
 
Ainda no ano de 1989, o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas, após 29 anos. Em Mato Grosso do Sul o governador Marcelo Miranda foi o maior cabo eleitoral do candidato do PMDB, Ulysses Guimarães. Mas, a chapa do candidato Fernando Collor (PRN), que tinha apoio do ex-governador Pedro Pedrossian, saiu vitoriosa.
 
Em 1990, o estado passou por novas eleições para governador. A administração Marcelo Miranda que começou bem, não tinha mais a popularidade do início. Não tinha também o apoio de grupos de esquerda, devido à reforma administrativa, que trocou lideranças do PCB por líderes de centro-direita. O PMDB enfraquecido não lançou a cabeça de chapa, preferiu concorrer com candidata à vice-governadora (Celina Jallad, filha do senador Wilson Barbosa Martins) na chapa de Gandi Jamil (PDT). Fortalecido ainda mais devido à popularidade do presidente Collor, Pedro Pedrossian saiu candidato pelo PTB. O PT concorreu com Manoel Bronze. Pedrossian retornou ao governo do estado, eleito no primeiro turno. 
 
No mês de agosto de 1990, o governo implantou a política de isonomia salarial para os servidores públicos estaduais. A isonomia tinha a intenção de tornar mais justa algumas distorções salariais de diferentes categorias. Contudo, pagar essa conta custou caro ao governador e a sua carreira política; e quem sofreu foram os trabalhadores. Alguns meses após pagar os valores, o estado alegava não possuir mais condições financeiras de cumprir o acordo, devido, entre outras coisas, ao Plano Collor que gerou recessão e queda na arrecadação de impostos. Como consequência disso, o funcionalismo público realizou um ato nunca antes visto em terras pantaneiras: a ocupação da Governadoria por quase um mês, entre 14 de fevereiro e 8 de março de 1991. O governador Marcelo Miranda Soares deixou a administração sem ao menos participar da solenidade transmissão do cargo para Pedro Pedrossian, no dia 15 de março de 1991.
 
No pleito eleitoral de 1994, Marcelo Miranda reatou aliança com Pedro Pedrossian. Cogitou sair candidato ao Senado e acabou concorrendo a deputado federal pelo PDT. Não se elegeu. Em 1998 e 2002 tentou, sem êxito, eleger-se à Câmara dos Deputados. Antes disso, nas eleições de 2000, disputou a Prefeitura de Paranaíba, também sem sucesso. Voltou à cena política durante o governo Zeca do PT, em 2003, indicado pelo PL de Londres Machado, como superintendente do DNIT, onde permaneceu até ser demitido, em 2012.
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é professor-mestre de História em Fátima do Sul - MS e autor do livro As eleições de 1982 em MS - Life Editora 2016)


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Postado por: Wagner Cordeiro Chagas (*), 25 Setembro 2017 às 15:00 - em: Falando Nisso


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